Ensinar uma criança a dizer “obrigado” é uma das primeiras lições de boas maneiras, mas a gratidão vai muito além da cortesia. Conforme salienta Alfredo Moreira Filho, empresário cuja família assenta em valores éticos e morais, reconhecer o que se recebe dos outros é um princípio que fortalece os laços familiares e ajuda a formar pessoas mais atentas ao próximo.
Nas últimas décadas, a gratidão tornou-se objeto de estudo da psicologia, e os resultados demonstram efeitos concretos sobre o bem-estar de adultos e crianças. Ao mesmo tempo, as investigações indicam que esta não surge espontaneamente: precisa de ser reconhecida, praticada e ensinada. Descubra, de seguida, o que a ciência revelou e como transformar este valor num hábito em casa.
O que é a gratidão, para além do “obrigado”?
Para os psicólogos, a gratidão envolve mais do que uma resposta educada a um favor. Inclui perceber que algo de bom aconteceu, reconhecer que isso resultou da ação de outra pessoa ou de circunstâncias fora do próprio controlo e sentir apreço por esse gesto. Na sua forma mais completa, conduz também a uma ação, como retribuir ou expressar o reconhecimento.
Esta distinção ajuda a compreender por que razão uma criança pode agradecer automaticamente sem, de facto, compreender o valor do que recebeu. O agradecimento mecânico cumpre as regras sociais, enquanto a verdadeira gratidão exige atenção e reflexão. Na perspetiva de Alfredo Moreira, é esta segunda forma que importa para a formação de valores, pois desenvolve a capacidade de reconhecer o esforço e a generosidade dos outros.
O que revelam as investigações?
Um dos estudos mais conhecidos foi conduzido pelos psicólogos Robert Emmons, da Universidade da Califórnia em Davis, e Michael McCullough. Durante dez semanas, um grupo de participantes registou semanalmente os motivos pelos quais se sentia grato, enquanto outro anotou situações desagradáveis. No final, quem escreveu sobre gratidão avaliava a própria vida de forma mais positiva, relatava menos queixas físicas e praticava mais exercício físico.

Outra experiência, coordenada pelo psicólogo Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia, testou a chamada visita de gratidão: os participantes escreviam uma carta de agradecimento a alguém importante nas suas vidas e entregavam-na pessoalmente. O aumento do bem-estar foi expressivo e manteve-se durante cerca de um mês. Na avaliação de Alfredo Moreira Filho, estes resultados reforçam a ideia de que reconhecer o que os outros fizeram por nós beneficia tanto quem recebe como quem expressa a gratidão.
Como aprendem as crianças a ser gratas?
A psicóloga Andrea Hussong, da Universidade da Carolina do Norte, coordena um projeto dedicado a compreender como a gratidão se desenvolve na infância. A sua equipa identificou quatro etapas que os pais podem estimular: perceber o que se recebeu, refletir sobre o motivo pelo qual alguém teve determinado gesto, reconhecer os sentimentos que esse gesto despertou e agir para demonstrar reconhecimento.
Na prática, isto significa ir além de recordar à criança que deve agradecer. Perguntas simples, como “porque achas que a avó escolheu este presente?” ou “como te sentiste quando o teu amigo te ajudou?”, ajudam a desenvolver esta compreensão. O exemplo dos adultos também é decisivo, uma vez que as crianças observam a forma como os pais tratam quem lhes presta um serviço ou como reagem a um gesto de gentileza. Assim, Alfredo Moreira salienta que a gratidão se ensina muito mais através da convivência do que da imposição.
Práticas simples para o quotidiano familiar
Algumas iniciativas fáceis de adotar podem transformar a gratidão numa parte integrante da rotina. Partilhar, durante o jantar, algo de bom que aconteceu ao longo do dia é uma delas. Escrever pequenos bilhetes de agradecimento a professores, familiares ou vizinhos é outra, permitindo que a criança experimente o efeito de expressar reconhecimento a alguém.
É importante, contudo, manter expectativas realistas. Revisões de estudos indicam que os efeitos das práticas de gratidão sobre o bem-estar existem, mas são moderados, e que estas não substituem o acompanhamento profissional em situações de sofrimento emocional. Também não se trata de exigir que a criança esconda frustrações ou sentimentos negativos. Para Alfredo Moreira Filho, o objetivo é ensinar a reconhecer o que existe de positivo nas relações, um valor que acompanha a pessoa ao longo de toda a vida.
