Tal como apresenta Paulo de Matos Junior, empresário do segmento financeiro, entre as narrativas mais frequentes sobre o potencial transformador dos criptoativos, fala-se muito que essa tecnologia pode ampliar o acesso a serviços financeiros para populações atualmente excluídas ou mal atendidas pelo sistema bancário convencional, reduzindo barreiras de entrada que historicamente limitaram a participação de pessoas de menor renda no mercado financeiro formal.
Dentre esse quesito, avalia-se essa promessa com equilíbrio, reconhecendo tanto as oportunidades concretas que a tecnologia oferece quanto as limitações práticas que frequentemente ficam em segundo plano nas discussões mais entusiastas sobre o tema. A análise honesta dos casos onde criptoativos efetivamente ampliam a inclusão financeira, em contraste com aqueles onde as barreiras de acesso simplesmente assumem novas formas, contribui para expectativas mais realistas sobre o papel dessa tecnologia na redução de desigualdades de acesso a serviços financeiros.
Onde os criptoativos efetivamente ampliam acesso financeiro?
Remessas internacionais de baixo valor são o caso de uso onde o impacto positivo de criptoativos sobre inclusão financeira encontra maior evidência concreta. Como trabalhadores estrangeiros costumam enviar recursos a familiares em países com infraestrutura bancária limitada, enfrentam taxas e prazos nos canais convencionais que podem representar parcela relevante do valor transferido. A possibilidade de converter recursos locais em stablecoins e transferi-los diretamente para destinatários em outros países representa benefício prático relevante para pessoas que dependem dessas remessas como fonte relevante de renda. Paulo de Matos Junior destaca que a consolidação do marco regulatório para PSAVs no Brasil cria condições para que prestadoras autorizadas desenvolvam soluções de remessa mais acessíveis e confiáveis, ampliando a inclusão financeira nesse segmento específico, com maior segurança institucional.
Populações de países com moedas locais sujeitas a depreciação intensa ou controles de capital restritivos encontraram em criptoativos uma alternativa prática para preservação de valor que o sistema bancário local não oferecia em condições adequadas, caracterizando outro caso de uso com impacto concreto de inclusão financeira em contextos específicos. A adoção de stablecoins indexadas ao dólar como reserva de valor cotidiana em economias com instabilidade monetária relevante representa fenômeno observado em diferentes países da América Latina e da África, demonstrando demanda real por alternativas ao sistema financeiro convencional em determinadas condições macroeconômicas. A distinção entre esses casos de uso com demanda genuína e a narrativa genérica de inclusão financeira como benefício universal de qualquer aplicação de criptoativos representa exercício analítico necessário para avaliar o impacto real da tecnologia nessa dimensão.
Quais são as barreiras práticas que limitam a inclusão financeira via criptoativos?
O acesso à tecnologia necessária para utilizar criptoativos, incluindo smartphone com conexão de internet de qualidade adequada e familiaridade com interfaces digitais, representa barreira que exclui precisamente parte da população mais vulnerável que a narrativa de inclusão financeira propõe beneficiar. Devido a isso, populações sem acesso regular a esses recursos tecnológicos dificilmente conseguem utilizar carteiras digitais ou plataformas de criptoativos de forma autônoma e segura. A complexidade técnica de conceitos como gestão de chaves privadas, risco de perda permanente de acesso a carteiras de custódia própria e identificação de golpes e fraudes no ecossistema cripto representa obstáculo adicional para usuários com menor letramento financeiro e digital, que são frequentemente os mais vulneráveis a perdas irreversíveis por erro operacional ou por vitimização por esquemas fraudulentos.
Nesse contexto, Paulo de Matos Junior observa que a superação dessas barreiras depende de investimento em educação digital e financeira, que vai além da simples disponibilização da tecnologia. Assim, é essencial que haja programas estruturados de capacitação, que a maioria dos projetos de criptoativos voltados à inclusão financeira ainda não incorpora de forma adequada.

Navegando a incerteza
A volatilidade de preço dos criptoativos sem mecanismo de ancoragem representa obstáculo específico para casos de uso de inclusão financeira que dependem de estabilidade de valor, como poupança de emergência ou pagamento de despesas cotidianas, já que a possibilidade de perda relevante de poder de compra em períodos curtos compromete a função econômica que esses instrumentos deveriam cumprir para as populações visadas. A expansão do uso de stablecoins atenua parte desse problema, mas introduz dependência de emissores privados cujas práticas de reserva e governança nem sempre são transparentes ou auditáveis, especialmente em versões disponíveis nos mercados informais de países com menor desenvolvimento regulatório. A combinação entre volatilidade dos ativos não ancorados e riscos de contraparte dos ativos ancorados cria dilema prático que não possui solução simples para casos de uso voltados a populações de menor renda com menor capacidade de absorver perdas.
Como a regulação brasileira influencia o potencial de inclusão financeira via criptoativos?
O marco regulatório estabelecido pelo Banco Central para PSAVs cria condições para que prestadoras autorizadas desenvolvam produtos mais acessíveis e seguros, voltados a populações com menor experiência no mercado financeiro, já que a supervisão contínua reduz o risco de que plataformas inadequadas ou fraudulentas dominem o acesso de usuários mais vulneráveis a instrumentos de criptoativos. A integração potencial entre criptoativos regulados e infraestruturas já amplamente adotadas pela população brasileira, como o sistema de pagamentos instantâneos, pode reduzir barreiras de adoção ao oferecer acesso por meio de interfaces familiares a usuários que já operam no ecossistema de pagamentos digitais convencionais.
Em vista disso, Paulo de Matos Junior avalia que o potencial de inclusão financeira via criptoativos no Brasil está mais diretamente ligado à capacidade de integração com infraestruturas digitais já existentes e amplamente adotadas do que à criação de ecossistemas paralelos que demandam aprendizado completamente novo por parte do usuário final. É melhorando e evoluindo o que já temos que o país se torna capaz de oferecer mais segurança para o investidor.
Os próximos passos do mercado
O desenvolvimento do DREX como moeda digital do Banco Central representa iniciativa com potencial de inclusão financeira mais direto do que criptoativos privados, dado que sua emissão por autoridade monetária soberana e sua integração ao sistema bancário convencional reduzem significativamente os riscos de contraparte e de volatilidade que limitam a utilidade de ativos digitais privados para populações de menor renda. A coexistência entre DREX e criptoativos privados no ecossistema financeiro digital brasileiro deve criar diferentes camadas de acesso, com o DREX potencialmente servindo casos de uso mais próximos de serviços financeiros básicos e criptoativos ocupando espaços onde a descentralização e a programabilidade oferecem vantagens específicas.
A evolução desse ecossistema ao longo dos próximos anos determinará em que medida a promessa de inclusão financeira via tecnologia de ativos digitais se traduz em benefícios concretos e duradouros para populações historicamente excluídas do sistema financeiro formal. E é justamente esse tipo de evolução que Paulo de Matos Junior acompanha com atenção, justamente por sua posição na interseção entre câmbio, criptoativos e o avanço regulatório brasileiro
