Startups e gigantes à mesa: Os erros identificados por Haroldo Augusto Filho

Chiara Delvani
6 Min de leitura
Haroldo Augusto Filho

A recente expansão da inovação aberta aproximou grandes empresas e startups. Na perspetiva de Haroldo Augusto Filho, executivo com experiência em negociação empresarial, gestão de conflitos e estruturação de soluções em ambientes empresariais complexos, estas parcerias fracassam frequentemente não por falta de interesse, mas devido a erros de negociação entre organizações que funcionam a ritmos opostos.

De um lado, encontram-se estruturas com comissões, vários níveis de aprovação e ciclos de decisão prolongados. Do outro, pequenas equipas que precisam de respostas rápidas para sobreviver. Ao longo deste artigo, conheça os erros mais comuns nestas negociações e saiba como evitá-los.

Erro de impor o ritmo da grande empresa

Uma cadeia de retalho identifica uma startup com uma solução promissora de logística e propõe um projeto-piloto. A negociação do contrato demora cinco meses, entre revisões e aprovações internas. Quando o acordo é finalmente celebrado, a startup já consumiu uma parte significativa da sua liquidez enquanto aguardava a decisão.

Para a grande empresa, cinco meses representam um prazo razoável. Para a startup, podem significar a diferença entre continuar a operar ou encerrar a atividade. Por esse motivo, a demora é interpretada como desinteresse ou falta de consideração, e a relação começa desgastada antes mesmo do primeiro teste da solução.

Segundo Haroldo Augusto Filho, o primeiro passo consiste em tornar o tempo um elemento explícito da negociação. Estabelecer, desde o início, um calendário de decisões, com datas para cada aprovação interna, proporciona à startup previsibilidade para planear a tesouraria e à grande empresa um compromisso que disciplina os seus próprios processos.

Erro de tratar a startup como um fornecedor comum

Outro aspeto relevante é a forma de contratação. Muitas grandes empresas aplicam às startups os mesmos contratos utilizados com fornecedores tradicionais, com exigências de garantias, seguros e prazos de pagamento prolongados. Para uma pequena empresa, condições concebidas para grandes fornecedores podem inviabilizar a parceria.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Um prazo de pagamento de noventa dias, comum entre grandes empresas, pode consumir meses de liquidez de uma startup em fase inicial. Nesta perspetiva, Haroldo Augusto Filho sugere adaptar as condições à fase da parceria, em vez de seguir os procedimentos habituais do departamento de compras.

Contratos específicos para projetos-piloto, com âmbito reduzido, pagamentos faseados e condições simplificadas, resolvem grande parte do problema. A grande empresa limita o seu risco à dimensão do teste, enquanto a startup consegue participar sem comprometer a sua sobrevivência. Se o projeto-piloto for bem-sucedido, as condições podem evoluir à medida que o volume de negócios aumenta.

Erro de disputar a propriedade do que será criado

Ao mesmo tempo, existe uma disputa menos visível: quem fica com aquilo que for desenvolvido em conjunto. A grande empresa pretende exclusividade sobre as adaptações realizadas para si, enquanto a startup precisa de preservar a sua tecnologia para a comercializar junto de outros clientes. Sem um acordo claro, esta questão bloqueia a negociação ou gera conflitos posteriormente, quando o produto já existe.

Uma solução frequente consiste em distinguir a tecnologia central da startup, que permanece na sua posse, das adaptações específicas para o cliente, cuja utilização pode ser exclusiva durante um determinado período. A startup preserva o seu negócio, enquanto a grande empresa garante uma vantagem competitiva temporária.

Isto não significa, contudo, que a questão seja simples. Cada parceria exige uma definição rigorosa do que constitui a tecnologia central e do que representa uma adaptação, sendo que esta distinção raramente é evidente. Abordar o assunto logo no início, quando ainda não existe um produto cuja propriedade possa ser disputada, é mais fácil do que fazê-lo após o sucesso do projeto.

Duas culturas, um acordo possível

A análise deste cenário demonstra que as parcerias entre grandes empresas e startups raramente fracassam por falta de valor potencial. Fracassam porque cada parte negoceia segundo as suas próprias regras, sem perceber que a outra funciona a uma velocidade diferente, com outros riscos e outras prioridades.

Tornar estas diferenças explícitas é fundamental para construir acordos viáveis. Um calendário de decisões, contratos adequados à fase do projeto e regras claras sobre aquilo que será criado em conjunto não eliminam as diferenças culturais, mas impedem que estas se transformem em conflitos.

Para a grande empresa, adaptar processos representa um investimento modesto perante a possibilidade de aceder a soluções que demoraria anos a desenvolver autonomamente. Em consonância com esta perspetiva, Haroldo Augusto Filho resume a principal lição: quem pretende inovar com startups precisa de negociar ao ritmo destas, sem abdicar dos seus próprios mecanismos de controlo.

Compartilhe este artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário