Quase metade da população idosa residente em Portugal declarou ter dificuldades na realização de pelo menos uma atividade doméstica. O valor, de 45,9%, consta de um destaque divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em 1 de outubro de 2026, com base nos resultados do Inquérito Nacional de Saúde realizado no quarto trimestre de 2025.
O levantamento considera a população com 65 ou mais anos e analisa diferentes dimensões das condições de saúde, autonomia e participação social. Além das tarefas domésticas, os dados abrangem cuidados pessoais, limitações sensoriais e físicas, mobilidade fora de casa, utilização de transportes e acesso a edifícios e instalações.
Dificuldades nas atividades do dia a dia
De acordo com o INE, 16,9% dos idosos afirmaram ter dificuldades na realização de cuidados pessoais. Esta dimensão inclui atividades necessárias à rotina e à autonomia individual, enquanto as tarefas domésticas estão relacionadas com a gestão e manutenção do espaço de habitação e outras responsabilidades do quotidiano.
Entre as limitações mais referidas está a dificuldade em morder ou mastigar, indicada por 17,1% da população idosa. O indicador é relevante por estar associado a uma função básica do dia a dia e por poder interferir na alimentação e no bem-estar, embora o destaque estatístico não estabeleça, por si só, uma relação individual entre esta dificuldade e outras condições de saúde.
Outra limitação identificada pelo inquérito diz respeito à capacidade para subir ou descer 12 degraus sem ajuda. Essa dificuldade foi mencionada por 16,9% dos idosos. O dado ajuda a ilustrar os obstáculos enfrentados em deslocações dentro ou fora de casa, sobretudo em edifícios ou espaços que não estejam adaptados às necessidades de pessoas com mobilidade reduzida.
Mobilidade, transportes e acessibilidade
As barreiras não se limitam ao interior da habitação. Segundo os resultados divulgados pelo Webinq, plataforma de indicadores do INE, 16,9% dos idosos referiram dificuldades na utilização de meios de transporte. Outros 16% indicaram obstáculos no acesso a edifícios e instalações, enquanto 15,7% apontaram limitações na mobilidade fora de casa.
Estes números mostram que a autonomia da população idosa depende também das condições do ambiente envolvente. A existência de transportes acessíveis, edifícios preparados e percursos adequados pode influenciar a capacidade de uma pessoa participar na vida social, tratar de assuntos pessoais ou aceder a serviços de saúde e apoio.
O levantamento não apresenta apenas uma leitura individual das limitações funcionais. Os resultados ajudam igualmente a identificar desafios para as famílias, os municípios, os serviços sociais e o sistema de saúde em Portugal. Apoio domiciliário, adaptação de espaços, acessibilidade dos transportes e acompanhamento de pessoas com maiores dificuldades são áreas diretamente relacionadas com este cenário.
Cuidados informais e suporte social
O inquérito também analisou a existência de cuidados informais, ou seja, o apoio prestado ou recebido fora de respostas formais. Entre os idosos, 22,4% disseram ter recebido apoio ou assistência informal. No sentido inverso, 11,9% afirmaram ter prestado cuidados informais a outras pessoas.
A informação revela que uma parte da população idosa não está apenas numa posição de recetora de cuidados. Alguns idosos também desempenham funções de apoio a familiares ou a outras pessoas, uma realidade que pode ser importante para compreender a organização dos cuidados dentro das famílias e das comunidades.
Quanto ao suporte social, 34,3% da população idosa afirmou beneficiar de um nível forte de apoio. O indicador deve ser lido em conjunto com os restantes resultados, uma vez que a existência de uma rede de suporte pode ajudar a responder a limitações nas tarefas domésticas, nos cuidados pessoais e nas deslocações, sem eliminar necessariamente as barreiras de acessibilidade.
O que os dados indicam sobre o envelhecimento em Portugal
Os resultados do INE traçam um retrato das dificuldades funcionais sentidas por uma parcela significativa dos residentes com 65 ou mais anos. A percentagem relativa às atividades domésticas é o principal dado do destaque, mas as limitações na mobilidade, no uso de transportes e no acesso a edifícios mostram que a autonomia está ligada tanto à condição física como ao espaço onde as pessoas vivem.
O Inquérito Nacional de Saúde fornece, assim, informação para acompanhar as condições de vida da população idosa e apoiar a análise das necessidades de intervenção. Os dados não substituem uma avaliação individual, mas permitem dimensionar, a nível nacional, problemas que afetam a rotina de muitas famílias em Portugal.
Ao reunir informação sobre saúde, autonomia, mobilidade, cuidados informais e suporte social, o levantamento contribui para uma discussão mais ampla sobre o envelhecimento. A resposta às dificuldades dos idosos em Portugal envolve não apenas cuidados de saúde, mas também habitação acessível, transportes, apoio social e condições que permitam manter a independência durante o maior tempo possível.
