Taiza Tosatt Eleoterio explora: como identificar o “ciclo de lua de mel” numa relação abusiva?

Chiara Delvani
7 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

Segundo Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com experiência no apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, um dos padrões mais confusos numa relação abusiva é precisamente o chamado “ciclo de lua de mel”: aquela fase, logo depois de um episódio de tensão ou agressão, em que o parceiro se mostra carinhoso, arrependido e atencioso, quase como se fosse uma pessoa completamente diferente.

Este período de aparente harmonia costuma confundir quem está de fora e, ainda mais, quem está a viver a relação por dentro. Reconhecer este padrão, em vez de se deixar levar apenas pela intensidade emocional de cada fase, é um passo importante para compreender a dinâmica completa deste tipo de relação.

O que caracteriza esta fase dentro do ciclo abusivo?

O ciclo de violência costuma repetir-se por etapas: acumulação de tensão, explosão do episódio de agressão ou humilhação e, em seguida, a chamada fase de lua de mel, marcada por pedidos de desculpa, promessas de mudança e demonstrações intensas de afeto. Presentes, gestos românticos e declarações emocionadas costumam surgir precisamente neste momento, criando a sensação de que a relação voltou a ser como era no início. Esta alternância entre tensão e reconciliação, quando observada apenas dentro de cada ciclo isolado, dificulta que a mulher perceba o padrão mais amplo que se forma ao longo de meses ou anos de convivência.

Taiza Tosatt Eleoterio observa que esta fase não é, na maioria dos casos, uma simulação consciente: muitas vezes, o próprio agressor sente um arrependimento genuíno naquele momento, o que torna ainda mais difícil para a mulher distinguir entre uma mudança real e um padrão que tende a repetir-se.

Por que razão esta fase reforça a permanência na relação?

A intensidade emocional da fase de lua de mel costuma reativar a esperança de que a relação possa, finalmente, estabilizar-se. Este contraste entre o momento de agressão e o momento de afeto intenso cria uma espécie de reforço emocional que dificulta a rutura, uma vez que a mulher passa a associar o parceiro tanto ao sofrimento como ao alívio desse mesmo sofrimento.

Como aponta Taiza Tosatt Eleoterio, este mecanismo assemelha-se a um vínculo de dependência emocional, em que os momentos de afeto intenso funcionam quase como uma recompensa que reforça a permanência, mesmo perante um padrão que, observado de fora, parece claramente prejudicial.

Como tende o ciclo a repetir-se ao longo do tempo?

Com o passar do tempo, é comum que a fase de lua de mel se torne mais curta e que os intervalos entre os episódios de tensão diminuam, ainda que o padrão geral do ciclo continue a repetir-se. Muitas mulheres relatam que, no início da relação, esta fase de reconciliação durava semanas ou meses, enquanto, mais tarde, passa a durar apenas alguns dias.

Como contextualiza Taiza Tosatt Eleoterio, observar esta progressão ao longo do tempo, e não apenas cada episódio isoladamente, ajuda a compreender o ciclo da violência como um padrão contínuo, em vez de uma série de acontecimentos desligados entre si.

Como diferenciar uma mudança real de uma repetição do ciclo?

Uma das perguntas mais frequentes é como saber se, desta vez, a mudança prometida é genuína. Mudanças reais costumam ser sustentadas por ações concretas ao longo do tempo, como procurar acompanhamento psicológico, e não apenas por palavras e gestos pontuais logo após um episódio de conflito.

Para Taiza Tosatt Eleoterio, o tempo é um dos melhores indicadores neste processo: promessas que se mantêm durante semanas ou meses, acompanhadas por mudanças efetivas de comportamento, são diferentes de promessas que desaparecem assim que a tensão do episódio anterior diminui.

O papel da rede de apoio na identificação deste padrão

Pessoas próximas, como familiares e amigos, muitas vezes conseguem perceber este ciclo a repetir-se antes mesmo da própria mulher, precisamente por não estarem emocionalmente envolvidas na fase de reconciliação. Contar com esta rede de apoio para conversar abertamente sobre aquilo que está a ser vivido pode ajudar a compreender o padrão com maior clareza. Esta distância emocional de quem observa de fora costuma funcionar como um contraponto importante à euforia momentânea da fase de lua de mel, ajudando a mulher a manter contacto com a perceção acumulada ao longo do tempo.

Partilhar estes episódios com alguém de confiança, mesmo durante a fase de lua de mel, quando tudo parece estar bem novamente, ajuda a manter uma visão mais realista sobre a relação como um todo, sem se deixar levar apenas pelo momento presente, o que reforça a capacidade de identificar o padrão com maior distância emocional.

Por que razão reconhecer este ciclo é um passo importante?

Identificar o ciclo de lua de mel não significa que a decisão de sair tenha de ser imediata, mas reconhecer este padrão já representa um passo significativo na compreensão da própria relação. Este reconhecimento ajuda a reduzir a confusão emocional que costuma acompanhar cada nova fase de reconciliação.

Compreender este ciclo, sustenta Taiza Tosatt Eleoterio, é o que permite que a mulher comece a observar a relação de forma mais ampla, para além dos momentos isolados de afeto, e passe a considerar, ao seu próprio ritmo, os caminhos possíveis para um recomeço mais seguro.

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