Falhas na correção digital das provas do secundário motivaram debate de urgência no Parlamento e pedidos de demissão de Fernando Alexandre por parte de sindicatos de professores
O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, tem enfrentado, ao longo das últimas semanas, uma das crises políticas mais intensas do seu mandato. O motivo é a implementação, pela primeira vez em Portugal, de um sistema de correção digital para os exames nacionais do ensino secundário, um processo que deveria simplificar a avaliação de mais de 300 mil provas mas que acabou por gerar atrasos sucessivos, erros de classificação e uma onda de críticas transversal a professores, alunos, famílias e partidos políticos.
Para quem acompanha este tema com menos regularidade, a primeira pergunta é inevitável, afinal, o que mudou este ano no processo de avaliação e por que razão gerou tanta contestação. A resposta está precisamente na novidade do sistema. Até este ano, os exames nacionais do secundário eram sempre corrigidos em suporte de papel. Em 2026, pela primeira vez, todas as disciplinas com exame nacional passaram a ser avaliadas através de uma plataforma digital, batizada de EduQA, o que representou uma mudança de grande escala num processo que envolve milhares de professores classificadores em todo o país.
Como surgiu o caos na correção dos exames
As dificuldades começaram a tornar-se públicas ainda antes da divulgação dos resultados, quando sindicatos e movimentos de professores começaram a reportar problemas na própria convocatória de professores classificadores. Segundo relatos recolhidos por movimentos como a MetaPROF e a Missão Escola Pública, foram convocados, por engano, docentes de outras disciplinas, professores já aposentados e, em alguns casos, até profissionais já falecidos, de acordo com informação avançada pelo Diário de Notícias. O ministro respondeu a estas acusações atribuindo a responsabilidade às direções escolares, que são, segundo Fernando Alexandre, as entidades responsáveis pelas convocatórias.
O prazo inicialmente previsto para a divulgação das notas, marcado para 14 de julho, teve de ser adiado para 17 de julho, e mesmo esse novo prazo acabou por ser prolongado por mais 24 horas devido a sucessivas falhas técnicas na plataforma, conforme detalhou o portal Impala. Este duplo adiamento colocou sob enorme pressão milhares de famílias que aguardavam os resultados para planear o acesso ao ensino superior, um calendário que, em Portugal, é particularmente apertado e deixa pouca margem para imprevistos.
A pressão sobre o ministro intensificou-se ainda mais durante o debate sobre o Estado da Nação, realizado a meio de julho na Assembleia da República. Nesse debate, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, chegou a admitir que 99,5% das respostas já estavam corrigidas, mas evitou garantir que a totalidade do processo ficaria concluída ainda nesse mesmo dia, segundo relatou o ECO. Ainda assim, o chefe do Governo manifestou publicamente confiança na continuidade de Fernando Alexandre à frente da pasta da Educação, apesar da contestação crescente.
A reação de sindicatos, professores e oposição
A Federação Nacional dos Professores, a Fenprof, foi uma das vozes mais críticas ao longo de todo o processo, chegando a apresentar uma queixa junto da Procuradoria-Geral da República relativamente à fiabilidade da plataforma utilizada na classificação dos exames. O secretário-geral da estrutura sindical, José Feliciano Costa, considerou que o processo tinha sido conduzido “com amadorismo e sem um plano de contingência”, segundo declarações reproduzidas pelo ECO. A mesma estrutura sindical alertou ainda que o problema não se resume à atuação de uma pessoa, apontando antes para as opções políticas que estiveram na origem da decisão de avançar com a digitalização sem um plano alternativo em caso de falha.
Este tipo de crítica ganhou ainda mais força quando o movimento cívico MetaPROF criou um sítio na internet dedicado exclusivamente a documentar testemunhos de professores afetados pelo processo, sob o título “Exames 2026: O caos documentado”, de acordo com o relato do portal Impala. A compilação de centenas de relatos ajudou a manter o tema no centro da atenção mediática durante várias semanas seguidas, mesmo depois de os resultados terem, entretanto, sido publicados.
Na Assembleia da República, o debate de urgência pedido pelo PCP colocou frente a frente as diferentes bancadas parlamentares. Segundo o Jornal Económico, a oposição, nomeadamente Chega e PS, acusou o Governo de fugir à responsabilidade política, enquanto as bancadas do PSD e do CDS-PP optaram por elogiar o ministro pela capacidade de assumir o problema e de continuar a reforma da Educação em curso. Esta divisão clara de opiniões mostra como o tema, apesar de técnico na sua origem, acabou por assumir contornos claramente políticos.
O que muda a partir de agora para alunos e famílias
Uma das questões que mais preocupava alunos e encarregados de educação era saber se o calendário de acesso ao ensino superior seria afetado pelos atrasos na correção. Segundo garantiu o próprio ministro, ouvido em audição parlamentar, não haveria necessidade de alterar o calendário de acesso, uma vez que a divulgação das notas às escolas acabou por ocorrer a tempo de manter o processo dentro dos prazos previstos, conforme confirmou o Observador. A primeira fase do Concurso Nacional de Acesso decorre até 6 de agosto, com resultados a serem conhecidos a 23 de agosto, num ano em que as instituições de ensino superior disponibilizam 56.790 vagas, mais 834 do que no ano anterior.
Fernando Alexandre reconheceu publicamente os problemas, pediu desculpa a alunos, professores, famílias e escolas, e anunciou um conjunto de medidas extraordinárias destinadas a minimizar o impacto das falhas, segundo relatou o portal Executive Digest. Entre essas medidas, incluiu-se a garantia de que todos os estudantes receberiam uma cópia digital, em formato PDF, das respetivas provas, em vez do simples envio de uma ligação eletrónica, como tinha sido inicialmente anunciado. Chegou mesmo a ser admitida a possibilidade de a tutela recuar na implementação do modelo digital, embora o ministro tenha reiterado confiança na continuidade do sistema.
Este episódio deixa, para já, duas questões em aberto no debate político nacional. A primeira é saber se a confiança pública no novo modelo de correção digital ficará definitivamente comprometida ou se conseguirá recuperar credibilidade nos próximos anos letivos. A segunda, com implicações mais imediatas, é perceber se a polémica dos exames terá consequências duradouras sobre a posição do ministro da Educação dentro do próprio Governo, num momento em que o Executivo já enfrenta pressão significativa da oposição noutras frentes. O desfecho deste processo continuará, previsivelmente, a marcar a agenda política portuguesa nas próximas semanas.
Fontes consultadas:
ECO
Jornal Económico
Observador
Diário de Notícias
Impala
Executive Digest
