Lisboa recebe conferência mundial sobre inteligência artificial na saúde com 37 países

Diego Velázquez
9 Min de leitura

Encontro organizado pela Organização Mundial da Saúde juntou ministros e especialistas para debater o uso ético da IA nos sistemas de saúde, com destaque para a cooperação entre países de língua portuguesa

Lisboa foi, nos dias 15 e 16 de julho, palco de um dos encontros internacionais mais relevantes do ano dedicados à aplicação da inteligência artificial na área da saúde. A iniciativa, organizada pela Organização Mundial da Saúde em articulação com o Ministério da Saúde de Portugal, decorreu na Unicorn Factory Lisbon, situada no Beato Innovation District, e reuniu ministros, vice-ministros, altos representantes governamentais, académicos e especialistas de 37 países. A escolha da capital portuguesa para acolher este debate não foi, segundo o Governo, um acaso, mas sim um reflexo do posicionamento que Portugal tem vindo a assumir na discussão sobre inovação tecnológica aplicada à saúde pública.

Para quem acompanha o tema com menos regularidade, é natural perguntar por que motivo um encontro desta dimensão escolheu Lisboa e não outra capital europeia. A resposta prende-se, em grande parte, com o crescimento do ecossistema tecnológico português nos últimos anos, associado a uma aposta clara do Governo em transformar a capital num polo internacional de debate sobre inovação. O Beato Innovation District, onde decorreu a conferência, tornou-se precisamente um símbolo dessa estratégia, ao concentrar startups, centros de investigação e iniciativas ligadas à transformação digital.

O que esteve em debate na conferência “Shaping AI in Health”

O momento alto do encontro foi a Conferência Internacional de Alto Nível “Shaping AI in Health”, que se centrou em temas como a governação e liderança estratégica da inteligência artificial na saúde, os enquadramentos legais e éticos associados a estas tecnologias, e a governação de dados. Segundo informação divulgada pelo portal do Governo de Portugal, o encontro procurou ainda discutir a interoperabilidade entre sistemas, a preparação dos profissionais de saúde para lidar com estas ferramentas e modelos de investimento responsáveis para a sua implementação.

Na abertura da conferência, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, sublinhou que a reunião em Lisboa reafirma o compromisso partilhado de garantir que a inteligência artificial serve as pessoas e ajuda a construir sistemas de saúde mais seguros, justos e resilientes. A governante acrescentou ainda que a IA representa uma oportunidade histórica para fortalecer os sistemas de saúde e melhorar a vida das pessoas, uma ideia que atravessou grande parte das intervenções ao longo dos dois dias de trabalhos. Este tipo de discurso reflete uma preocupação crescente entre decisores políticos, a de garantir que os avanços tecnológicos não se tornam apenas um exercício de inovação pela inovação, mas sim uma ferramenta concreta ao serviço dos doentes.

Um dos aspetos mais discutidos ao longo do encontro foi precisamente o equilíbrio entre inovação e regulação. À medida que mais países adotam soluções baseadas em inteligência artificial nos seus sistemas de saúde, cresce também a necessidade de garantir que essas tecnologias respeitam critérios rigorosos de segurança, privacidade e equidade no acesso. Foi exatamente esse equilíbrio que motivou grande parte dos painéis técnicos realizados durante a conferência, com participação de representantes das seis regiões da Organização Mundial da Saúde.

Por que este encontro interessa diretamente aos portugueses

Uma das perguntas mais pertinentes para quem acompanha este tipo de notícia é simples, afinal, o que muda no dia a dia de quem recorre ao Serviço Nacional de Saúde. A resposta está ligada a um objetivo mais amplo do encontro, transformar compromissos políticos em ações concretas que ajudem os países a adotar soluções de inteligência artificial adaptadas ao seu nível de maturidade digital. Isto significa que decisões tomadas em fóruns como este acabam por influenciar, de forma indireta mas real, a forma como hospitais e centros de saúde portugueses passam a utilizar tecnologia no diagnóstico, na gestão de listas de espera ou na organização de cuidados.

Este debate ganha ainda mais relevância quando se olha para exemplos já em curso no território nacional. O próprio Governo tem destacado, noutras ocasiões, o papel da inteligência artificial na redução de tempos de espera e no alargamento do acesso a especialidades como a fisioterapia dentro do Serviço Nacional de Saúde. A participação de Portugal como anfitrião de um encontro desta natureza reforça, assim, a ideia de que o país não se limita a acompanhar a tendência internacional, procurando também posicionar-se como um interlocutor ativo na definição de boas práticas globais.

Além do impacto direto nos cuidados de saúde, há também uma dimensão económica associada a este tipo de eventos. A realização de conferências internacionais de grande escala em Lisboa contribui para consolidar a imagem da cidade como destino de referência para debates tecnológicos, atraindo investimento, talento e visibilidade internacional. Este fator tem sido, aliás, um dos pilares da estratégia nacional para a inteligência artificial, que aposta em áreas como a cibersegurança, a robótica aplicada à indústria e a economia ligada ao mar como setores prioritários de desenvolvimento.

A cooperação entre países de língua portuguesa em saúde digital

Um dos momentos mais significativos do encontro ocorreu à margem da conferência principal, com uma reunião de trabalho entre ministros da Saúde e representantes governamentais de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. O objetivo deste encontro paralelo foi reforçar a cooperação entre os países de língua portuguesa na área da saúde digital, promovendo a partilha de conhecimento e de boas práticas entre sistemas de saúde com realidades muito distintas entre si.

Este tipo de articulação assume particular relevância num contexto em que muitos destes países enfrentam desafios estruturais diferentes no acesso à saúde, desde a escassez de profissionais especializados até à falta de infraestruturas digitais em zonas mais remotas. Ao desenvolverem estratégias comuns, os países da CPLP procuram acelerar soluções inovadoras que contribuam para melhorar o acesso, a qualidade e a eficiência dos cuidados de saúde, evitando que cada país tenha de percorrer sozinho o caminho da transformação digital. A experiência portuguesa, nomeadamente ao nível de projetos já implementados no Serviço Nacional de Saúde, foi um dos pontos de partilha nesta reunião.

Para o futuro próximo, este tipo de cooperação poderá traduzir-se em programas conjuntos de formação, partilha de dados e desenvolvimento de ferramentas adaptadas à realidade de cada país, sempre com a preocupação de garantir equidade no acesso à inovação. A escolha de Lisboa como palco deste debate reforça o papel de Portugal como ponte entre a Europa e os restantes países lusófonos, um posicionamento que o Governo tem procurado consolidar em várias áreas, da economia à diplomacia científica. O encontro deixou, assim, um sinal claro de que a inteligência artificial na saúde deixou de ser apenas um tema de debate teórico, para se tornar uma prioridade estratégica partilhada por um conjunto alargado de nações.

Fontes consultadas:
Portal do Governo de Portugal (XXV Governo Constitucional)

Compartilhe este artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário