O Conselho das Finanças Públicas (CFP) reviu em alta a previsão de crescimento real da economia portuguesa para 2026, de 1,6% para 2,2%. A atualização consta do relatório sobre as perspetivas económicas e orçamentais para o período de 2026 a 2030, divulgado em 24 de setembro de 2026. Apesar do desempenho mais favorável esperado para o Produto Interno Bruto (PIB), o organismo alerta para uma subida da inflação e para uma menor margem nas contas públicas.
De acordo com o Conselho das Finanças Públicas, a revisão da previsão de crescimento é explicada sobretudo pelos resultados observados no primeiro semestre e pelo aumento do investimento público associado à conclusão do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A projeção indica, assim, uma economia com maior dinamismo no curto prazo, embora sujeita a riscos relevantes.
Investimento público impulsiona previsão para 2026
O investimento público deverá aumentar 22,3% em termos nominais em 2026, segundo a estimativa do CFP. Com esta evolução, o seu peso no PIB deverá passar de 3% para 3,5%. A execução de projetos relacionados com o PRR surge como um dos principais elementos de suporte à atividade económica no ano.
O relatório ressalva, contudo, que o crescimento da despesa líquida deverá atingir 7,4% em 2026. Esse ritmo fica acima da trajetória assumida por Portugal no plano orçamental de médio prazo. A diferença coloca em evidência a tensão entre a necessidade de concretizar investimentos públicos e a preservação de uma evolução controlada da despesa.
As previsões foram elaboradas num cenário de políticas invariantes. Isto significa que o CFP considera as medidas já suficientemente detalhadas ou legisladas, sem incorporar novas decisões cuja aplicação ainda não esteja definida. O próprio organismo disponibiliza informação adicional sobre os seus cenários de médio prazo.
Inflação deverá acelerar para 3,2%
A melhoria da previsão de crescimento não elimina a pressão sobre os preços. O CFP estima que o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor avance de 2,2% em 2025 para 3,2% em 2026. A principal explicação apontada é a subida dos combustíveis, com efeitos indiretos sobre os transportes, a alimentação e os bens industriais.
Para 2027, a previsão é de uma desaceleração da inflação para 2,6%, num cenário em que os preços da energia recuem. A evolução prevista significa que famílias e empresas poderão enfrentar, em 2026, um aumento mais intenso dos custos, mesmo com a economia a crescer acima do inicialmente estimado.
O comportamento dos combustíveis assume, por isso, um papel importante nas perspetivas para o custo de vida. Além do impacto direto no abastecimento e na mobilidade, a subida da energia pode influenciar os custos de produção e distribuição, refletindo-se posteriormente em diferentes categorias de bens e serviços.
Excedente orçamental será mais reduzido
Na área das finanças públicas, o CFP mantém a previsão de um saldo positivo das administrações públicas em 2026, mas reduziu a dimensão esperada desse excedente para 0,2% do PIB. A estimativa considera os efeitos das medidas de resposta às tempestades, do conflito no Médio Oriente, do maior recurso a empréstimos do PRR e das políticas de apoio às famílias.
O saldo positivo previsto para 2026 deverá ser seguido pelo regresso a défices nos anos seguintes. O CFP projeta um défice de 0,2% do PIB em 2027 e de 0,5% em 2028. As projeções mostram uma deterioração gradual da posição orçamental, num contexto em que a despesa pública deverá manter uma dinâmica significativa.
A combinação entre maior investimento, medidas de apoio e respostas a acontecimentos adversos reduz a margem disponível para as contas públicas. Embora o crescimento económico seja mais forte do que o previsto inicialmente, essa melhoria não se traduz automaticamente num reforço do excedente orçamental.
O que está em causa para Portugal
As novas projeções traçam um cenário com sinais positivos e negativos em simultâneo. Por um lado, Portugal deverá crescer 2,2% em 2026, apoiado pelo desempenho do primeiro semestre e pelo investimento público. Por outro, a inflação deverá subir para 3,2%, enquanto o excedente das administrações públicas ficará limitado a 0,2% do PIB.
Para as famílias, a principal preocupação está na evolução dos preços dos combustíveis e dos seus efeitos sobre transportes, alimentação e outros bens. Para empresas e contribuintes, o desafio passa pela necessidade de conciliar investimento e medidas de apoio com uma trajetória orçamental sustentável.
O relatório do CFP não apresenta apenas uma revisão positiva do crescimento económico de Portugal em 2026. A atualização também evidencia que uma economia mais dinâmica pode coexistir com maior pressão sobre o custo de vida e com uma redução da margem das contas públicas. A evolução dos preços da energia, a execução do PRR e as decisões de política orçamental serão determinantes para o cumprimento destas previsões.
